Texto 01

Ao olhar de relance para o lugar no chão onde os visitantes costumavam tirar os chinelos, ela notou ao lado de dos pares de chappals, um par de sapatos masculinos que não eram parecidos com nada que tivesse visto nas ruas, condes e ônibus de Calcutá, ou mesmo nas vitrines de Bata. Eram sapatos marrons com saltos pretos, cordões e costura na cor off-white. Havia uma série de buracos em relevo, do tamanho de lentilhas, dos dois lados de cada sapato, e nas pontas, um belo desenho no couro como se feito com uma agulha. Ao olhar mais de perto ela viu a assinatura do sapateiro grafada do lado de dentro, em letras douradas, quase totalmente apagadas: alguma coisa e filhos, dizia. Viu o tamanho, oito e meio, e as iniciais USA. E enquanto a mãe continuava a enumerar seus méritos, Ashima, sem conseguir resistir a um impulso repentino e poderoso, pôs os pés dentro dos sapatos que estavam no chão. O resto de suor dos pés do dono misturou-se ao dela, fazendo seu coração disparar; era a coisa mais próxima do toque de um homem que ela já tinha sentido. O couro era enrugado e pesado, e ainda estava quente. No sapato direito ela notara que um dos cadarços em zigue-zague tinha pulado um buraco, e essa desatenção a deixou mais à vontade.

Em seus sonhos, Ashima entregava sorrindo no verão pares de sandálias confortáveis em caixas de papelão simples, para várias pessoas, duvidava por um momento da decisão de se casar com Ashoke. Segundo Dadi, quando calçamos os sapatos em sonho é porque encontramos a pessoa certa para casar, Ashima escolhera Ashoke calçando seu par de sapatos enquanto ainda moravam em Calcutá. Após a mudança para os Estados Unidos ela retornava ao sonho, e se questionava sobre sua escolha e sobre a vida, tão longe de tudo, inclusive de si mesma. Os sonhos são importantes, os sapatos também, principalmente para firmar os pés na terra e dar passos seguros.

 

(Primeiro parágrafo: O Xará, Jhumpa-Lahiri, págs. 16-17, Biblioteca Azul; 1ª edição, 1 junho 2014)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tenho acordado com vontade de viver

Semelhanças entre “O laço de Fita” (1913) de Castro Alves e “Menina bonita do laço de fita” (1986) de Ana Maria Machado

Mente pra mim não muleque