Semelhanças entre “O laço de Fita” (1913) de Castro Alves e “Menina bonita do laço de fita” (1986) de Ana Maria Machado
Castro Alves
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita
Ana Maria Machado
Os cabelos eram enroladinhos bem negros como fiapos da noite
Menina mulher descrita com animalidade
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem
Formoso enroscava-se
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera
negra na chuva
Menina mulher comparada com a Serpente, habitante do mundo
dos sonhos e inconsciente, habitante de dois reinos a terra e a água, o começo
e o fim, origem e destino, ela surge das profundezas do rio para a superfície
da terra e é responsável pelo povoamento do mundo, da multiplicação, relacionada
com a libido, por vezes fálica, venenosa, obra do mal, símbolo da fecundidade, serpente
não é macho nem fêmea, ou mesmo deusa ou diaba, traz a morte e a transformação.
Menina mulher comparada a pantera, felina com melanina. A
primeira referência foi aos Panteras Negras de 1960, sem laços de fita, usando
black power para combater à desigualdade contra os afro-americanos. A segunda
referência foi ao título cerimonial atribuído ao chefe da Tribo Pantera da
avançada nação africana de Wakanda, confirmado em “Ela ficava parecendo uma
princesa das Terras da África”.
Talvez da cadeia liberte as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo
dela e enfeita com laços de fita coloridas.
...
Os anjos repousam nas penas brilhantes
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita
Uma fada do reino do luar
Borboletas, anjos e fadas, encanto extraordinário, vivem
entre a fantasia e a realidade
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c’roa...
Teu laço de fita
Do lado da casa dela morava um coelho branco, de orelhas cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele já tinha visto em toda a sua vida. E pensava:
- Ah, quando
eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela...
Por Castro Alves temos um homem que viola a menina com o
olhar, por Ana Maria Machado temos outro homem, animalizado, em forma de
coelho, que novamente está em direção ao desconhecido, inquieto sufocante, perturbador
e insistente.
Tinta, café, jaboticaba, feijoada
Só faltou piche e asfalto para piorar a história
A mãe era mulata
Na língua espanhola, mulata referia-se ao filhote macho do
cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua.
O braço, que rompe as cadeias de ferro,
Não quebra teus elos
A gente se parece até com parentes tortos?
...
Tinha coelho pra todo gosto, branco bem branco, branco meio cinza, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelhinha bem pretinha.
Uma pretinha só
De laço no pescoço
E para celebrar mais a representatividade para meninas
pretas brasileiras quero compartilhar uma fotografia da Maria Gotinha

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