Lama que cura
Aidil Araújo Lima Mãe Zia lia com os sentidos. Às vezes, ela agia como se houvesse fecundado a terra, soubesse de seus segredos, como mãe atenta à vida descobre num piscar de olhos se o filho está mentindo. Certo dia, ela disse: a chuva desce, molha a terra e salva as plantações de morte certa; então deduziu o poder de cura dos males da vida humana com essa mistura – água de chuva e terra. Nessa hora agia sem ouvir opinião alheia, pois dizia: tem ocasião em que a palavra repetida como verdade deturpa a realidade. Uns achavam loucura, mas o resultado era bom, ela aplicava essa lama na gente e sarava qualquer doença. Lembro-me de um episódio no qual a Berenice, um ano mais nova que eu, em suas estripulias na chuva, subiu na árvore; nesse mesmo instante um raio caiu nessa árvore, e ela despencou na lama, ninguém sabia se viva ou morta, acho que até minha mãe prendeu o desespero na garganta. Todos da redondeza ficaram paralisados, queriam pegar a menina, por outro lado não se arr...