Lama que cura

Aidil Araújo Lima

 

Mãe Zia lia com os sentidos. Às vezes, ela agia como se houvesse fecundado a terra, soubesse de seus segredos, como mãe atenta à vida descobre num piscar de olhos se o filho está mentindo. Certo dia, ela disse: a chuva desce, molha a terra e salva as plantações de morte certa; então deduziu o poder de cura dos males da vida humana com essa mistura – água de chuva e terra. Nessa hora agia sem ouvir opinião alheia, pois dizia: tem ocasião em que a palavra repetida como verdade deturpa a realidade. Uns achavam loucura, mas o resultado era bom, ela aplicava essa lama na gente e sarava qualquer doença. Lembro-me de um episódio no qual a Berenice, um ano mais nova que eu, em suas estripulias na chuva, subiu na árvore; nesse mesmo instante um raio caiu nessa árvore, e ela despencou na lama, ninguém sabia se viva ou morta, acho que até minha mãe prendeu o desespero na garganta. Todos da redondeza ficaram paralisados, queriam pegar a menina, por outro lado não se arriscavam a perder a vida. Minha mãe não hesitou um segundo, correu e soltou o grito preso ao corpo num escorrego entre a terra e o aguaceiro, agarrou a filha e rolaram as duas na terra molhada. Levantou esticando Berenice, pesada do susto de terra grudada ao corpo, ninguém de coragem ofereceu ajuda nessa tarefa. As duas chegaram a casa, enroladas e salvas, ninguém explica como depois de um raio a pessoa sai intacta, minha mãe sabia. Quando nasceu outra dentro de mim, a menina e a mulher se misturando no apercebimento da vida, atinaram sua sabedoria do mundo. Antes, eu ria e ela ia me deixando fecundar pelos pensamentos alheios. Quando nasci, minha mãe me deixou pelo avesso durante sete dias. Sem sair do quarto, até as roupas usadas em mim eram viradas ao contrário. Esse costume me foi trazido lá da África por meus ancestrais. Uma maneira de subverter um destino amargurado.

Eu ria dessas conversas e pensava ser crendice de gente sem instrução. Um dia, de repente, os sinais foram se mostrando, primeiro um livro, li todo. Uma inverdade sobre meu povo. Li novamente, e de novo. Escacarei o olho. Eles mentem. E agora? Teria que ler tudo novamente? Todos os livros que li até esse tempo? Como criar outras verdades? Foi assim que percebi que minha mãe sabia muito, mais que tudo isso que estava escrito. Mais um sinal, de olho novamente. Acho que pelo olhar o mundo se faz. Tem um olho escondido nos nossos sentidos, pois os cegos também enxergam, basta estar conectado, desligado do vazio que nos impõem as aparências. Há alguns dias senti a vida perdendo a alegria, foi esvaziando o riso, o encantamento com as coisas belas, me senti murchando, igual planta acabrunhada, precisando de água de renascimento, pensamento estacado no nada da existência, parecia um buraco em que deixamos de ser alguma coisa; foi quando me lembrei da cabaça, minha mãe sempre usava nos momentos de aflição da vida. Pedi com fé que a criadora de todas as coisas me ajudasse a tirar essa apatia e me renovasse como uma árvore brotando novas folhas, e no mesmo instante uma ventania sacudiu o desalento. Ao me deparar com o espelho, me percebi linda, fui à festa da lua cheia. Cheguei tarde, pé a pé, ela me esperava na cama preocupada com meu destino, disse:

Amanhã conversamos.

No dia seguinte, estava a ler sob a mangueira, ela se aproxima com ar de preocupação. Começou decretando meu amadurecimento, falou sobre eu ter entendimento em assuntos mais avançados, pelo visto, se iniciava uma nova etapa em minha vida. Essa conversa aconteceu no fim de tarde, as crianças brincando no terreiro, ela se aproximou de mansinho e disse:

Sabe, minha filha, você já está ficando uma mulher, precisa entender certas coisas. O útero da mulher é como uma cabaça, quando fertilizado, gera outros frutos, outras vidas. Nós mulheres somos responsáveis pela perpetuação da vida humana na terra. O homem coloca a semente e nós carregamos o filho por nove meses, cuidamos com muito afeto da sua sobrevivência, educamos e os guiamos a um destino de menos dificuldade, estimulamos sua capacidade de ocupar espaços de liderança, dignidade, felicidade. Por isso eu te digo: é muita responsabilidade gerar um filho, só o faça quando estiver pronta.

Minha mãe tinha intuições repentinas. Sua vida não foi fácil, assim como muitas mulheres criou os filhos sozinha, seu útero era como uma cabaça onde os homens depositavam o esperma e depois sumiam. Ela nunca se queixou da vida. Só pedia aos filhos foco nos estudos, que enxergassem a oportunidade de ter conhecimento, mesmo em escola pública ela arranjava livros nos lugares em que fazia faxina. Salvou a vida de tantas pessoas sem distinção. Não aceitava pagamento – ela dizia que não podia cobrar pelo que a natureza oferecia com tanto amor, só utilizava as ofertas da mãe terra, sem cobrar nada por isso. Isso era verdade, muitos diziam: que bobagem é essa? O certo é que funcionava. Até a mulher do prefeito lá chegou, estado lastimável, uma angústia reverberava em seu rosto. Minha mãe conversou com ela e pediu que fizesse uma coisa: trocasse a raiva pelo amor, a vingança pelo perdão.

Você tem muito ódio em seu coração, minha filha.

Outra coisa, não mais lembrava, receitou sete banhos de cravos com açúcar. Impressionante o jeito como essa mulher voltou oito dias depois, rejuvenesceu vinte anos, levem sem amargura nos olhos. Trouxe uma considerável quantia em dinheiro, minha mãe não aceitou. No dia seguinte, um vestido verde de presente.

- Presente eu aceito, minha filha. Se é dado de bom coração, não posso fazer desfeita.

Era um vestido lindo, minha mãe vestiu, se ajeitou em frente ao espelho e ficou tão contente... Dançou e riu. Passados uns dias, a mulher mandou materiais de construção da reforma da casa, e um pedreiro. Minha mãe relutou no pensamento, titubeou. – Isso não é dinheiro, é presente, assim como o vestido. – Aceitou. Eram tantas curas, da alma e do corpo, arrastando um médico lá em casa, o cento levou ao longe, essa boa intensão de minha mãe, chegou meio tímido, e minha mãe o convidou a sentar no banco de madeira à sombra da árvore. Um pouco envergonhado, explicou que, apesar de ser médico, de ter feito vários exames, sentia um cansaço imenso, quase não o deixava exercer a profissão. Os exames nada acusavam, já havia tomado vitaminas e nada resolvia. Minha mãe falou:

- Meu filho, desculpe voltar sua palavra, sou uma pessoa sem instrução e o senhor é um doutor formado, mas seu problema é olho.

- Olho?

- Sim, meu filho, olho gordo, inveja, você é esforçado, preto como eu, as pessoas não aguentam ver isso, sei do seu esforço nessa conquista, meu filho, muita batalha, assim como afrontamos o medo e saímos daquele lugar apontado aos de nossa cor de pele, carece ter muita determinação e coragem segurar a dignidade.

- Tem cura?

- Sim, você vai tomar sete banhos de arruda, esfrega a folha na água, coloca um pouco de açúcar, tem resguardo, viu, meu filho.

O médico retornou encantado, já sabia da sua recusa de pagamento, trouxe presente. Perguntou se podia voltar, pois o lugar era muito agradável...

- Claro, meu filho, volte quanto quiser.

Hoje, ele é quase um membro da família, passa Natal lá em casa, solução encontrada, minha mãe não arreda o pé de passar em sua casa. Uma dessas endinheiradas pagou minha escola, eu era a melhor aluna da sala, aproveitei ao máximo a oportunidade. Sonhava, enquanto via o dia seguinte virar véspera, em dar uma vida decente à minha família. Foi quando amadureceu a ideia de escrever a história verdadeira, a atual foi inventada, perversamente, com a intenção de manter a maioria da população submissa, escravizada. Minha mãe assistiu à minha formatura na universidade. Candidatei-me a uma vaga de trabalho, escola particular, o salário era bom, podia ajudar minha mãe. No dia seguinte seria a entrevista, arrumei a roupa de véspera, à noite sonhei, eu estava toda de branco com um vestido brocado muito bonito. Acordei mais cedo, precisava passar a ferro a roupa do sonho. Fui selecionada em primeiro lugar. Consegui interromper o trabalho de minha mãe e puxar meus irmãos no ingresso à universidade. Continuei com os estudos e escrevendo a história verdadeira do Brasil. Minha mãe faleceu anos depois, na época eu fazia doutorado em outro país, ela mandou me chamar urgente, disse apenas estar a minha espera, estava partindo, sua missão aqui na terra havia acabado. Cheguei o mais rápido possível. Ela me disse que a terra foi criada por uma mulher, o nome dela é Odudua, por isso nós somos fortes e sensíveis, só uma mulher é capaz de criar algo tão belo como a vida na terra. Então ela tirou de baixo do lençol uma cabaça e me entregou, disse:

- Essa cabaça simboliza o útero da terra, o útero da mulher, nós somos sagradas, somos Odudua.

Logo em seguida, sua alma saiu, e eu explodi em lágrimas sobre seu corpo. Afastei-me, deixando a cargo dos irmãos os cuidados burocráticos. Fui de encontro à casa, sob a árvore de Berenice, assim a chamamos depois do episódio do raio, com as mãos cisquei a terra rompendo a noite, ajeitei meu corpo, a notícia correu, pessoas saíram esbaforidas rumo ao hospital, me olhavam com espanto, diziam – Seja forte, se levante. Disse-lhes que fossem, precisava ficar sozinha. Aconchegada à terra, segurei a cabaça, fechei os olhos, a tristeza foi me acalmando, vi minha mãe menina, seu riso contagiante, vi minha mãe mulher na labuta sem nenhum lamento, vi minha mãe curando pessoas usando consolos sem definição, vi lágrimas de gratidão se transformando em flores e ela passando sorrindo acompanhada de seus guias espirituais. Senti a chuva refrescar meu ser, amolecer a terra, segurei a cabaça junto ao ventre. Parece que dormi e tive um sonho – eu, mulher, sagrada, eu estava grávida, uma menina, Maria seria seu nome. Odudua... Odudua... Odudua.

 

 

Odudua

Odudua é a divindade nagô responsável pela criação do aiê, o mundo terreno. Há um mito que conta que Olorum, o deus supremo, entregara essa incumbência a Oxalá, mas este não conseguiu completar a missão. Foi então que Odudua, a contraparte feminina de Oxalá, quem tornou do apô iuá o saco da existência, e criou o mundo tal qual o conhecemos. Odudua representa a energia feminina, a terra, a noite, o a lua, a morte, enquanto Oxalá está relacionado com a energia masculina, o céu, o dia, o sol, a vida. Não se inicia na cabeça de ninguém. Odudua confunde-se com um personagem histórico, o rei conquistador que fundou a cidade de Ilê Ifê, berço da civilização ioruba. Integra grupo dos orixás funfun, isto é, as divindades primordiais identificadas com a cor branca. Entretanto, também está associada ao preto.

 

Contos de Axé

18 histórias inspiradas nos arquétipos dos orixás

Organização Marcelo Moutinho

Vários autores

1ª edição – Rio de Janeiro: Malê Edições, 2021

Páginas 191- 199

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