Mente pra mim não muleque
Quem fala demais não faz nada (sim, é sobre atitudes)
Cresci ouvindo palavras e nem sempre essas palavras condiziam com a verdade, ouvir um na volta eu compro, ou mesmo vou vim te ver por vezes gerava incômodo. Então decidi criar meu filho com verdade, mesmo que ela não seja a melhor coisa para se escutar no momento, outro ponto que tenho trabalhado é a forma como argumento, o jeito da minha fala, sei que às vezes sou dura, direta e grossa.
O Isaac não costumava mentir, porém neste fim de semana foram três mentiras na sequência. Isso me chateou, e eu não soube lidar.
Perguntei como poderia administrar a situação na terapia, aquele velho modelo de interrogatório surgiu na mesa, e acho que não tem muito a ver comigo. Sei que também faz parte do entendimento do erro, quando falamos você errou, fez isso e aquilo e me magoou, não damos tempo da pessoa processar a informação e assumimos a culpa do outro.
Na segunda-feira estávamos voltando pra casa, foi um trajeto demorado, conseguimos sentar, e aí entrou um cara contando a sua trajetória de vida:
- Meu nome é fulano, sou professor de educação física, porém fui preso, saí da cadeia recentemente (uma semana) e preciso de ajuda pois não estou conseguindo criar meus filhos, que são dois, tenho até tatuagem com os nomes (começavam com W, um menino e uma menina), qualquer ajuda vai ser muito importante, pode ser uma comida, um lanche, qualquer coisa que tocar no coração.
Passou um tempo e umas pessoas resolveram ajudar, e teve um senhor que falou:
- Eu tenho um sítio, você quer trabalhar? (E falou o nome da cidade do interior)
O homem continuou a arrecadar dinheiro. Mas em determinado momento perguntou:
- É para ser caseiro? Vou com minha família, você sabe são minha mulher e duas crianças.
Condessa que não botei fé na vontade de trabalhar, o senhor falou:
- Tudo bem pode ser.
O homem se aproximou e falou:
- Então passa seu número de celular, que mando mensagem amanhã.
O senhor disse que não ia passar, que já conhecia o homem de longa data, que ele não tem interesse de trabalhar, que ajudou com R$150,00 na semana passada e novamente via o homem alí. A partir desse momento o convívio no ônibus ficou tenso e a discussão seguiu até que o homem desceu do ônibus, sendo intimidado pelo senhor, ao mesmo tempo em que o homem ameaçava o senhor.
Passado um tempo me viro para o Isaac e pergunto:
- Você entendeu o que aconteceu aqui?
Ele começa a contar os fatos e diz que não foi legal oferecer um serviço quando não tem. Aí eu perguntei:
- Qual o nome disso? Como se chama uma coisa que não é verdade?
Ele tentou desviar, o muleque é ligeiro, mas eu voltei e perguntei:
- O que o Pinóquio fazia?
Ele me respondeu:
- Ele mentia mamãe.
- Isso foi o que?
- Uma mentira.
- É legal mentir para as pessoas?
- Não.
Aí falei mais um bolão, sobre o impacto da mentira na vida adulta e sobre os riscos que aquele senhor teve naquele momento, enquanto isso mais pessoas do ônibus estavam falando com o senhor e mostrando a indignação com a atitude.
Sei que o Isaac ainda vai mentir, somos seres humanos até eu minto, mas é importante que saiba as consequências. A quebrada sempre ensina e ter uma mãe preta também.
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