Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Meu celular sempre está no mudo, não sei de fato como eu
acordo. Tomo banho, lavo o cabelo, reparto o cabelo em cinco, com uma piranha e
uso muito creme. Das minhas janelas vejo o céu e escolho rapidamente o look do
dia, tenho meus acessórios favoritos, pulseira com pingentes de sol e um peixe,
outra pulseira de bolinhas que quando quebrar, quebra o mal, colar e brincos de
pedras com significados que eu nem sei ao certo. No rosto é a mesma coisa quase
sempre, tônico facial, sérum, hidratante, filtro solar e hidratante labial,
gosto de passar rímel incolor nas sobrancelhas e lápis marrom e rímel normal
nos cilios, às vezes um delineado ou muito raramente uma sombra. Duas
borrifadas do Diva ou óleo essencial no aromatizador em colar, alecrim, cedro e
laranja, blend energizante.
Minha bolsa é sempre um parto, o que levar? Livros? Material
de desenho? Coisas para fazer crochê? Tá pesada. Fecho a porta. Gosto dos meus
chaveiros, tem um de coração feito em V, da Vivaz e um com uma semente. Aperto
o botão 0 para chegar ao térreo, passo pela lavanderia, pela brinquedoteca,
chego ao portão. Bom dia! Bom dia!
Começo a descer a ladeira, antes de terminar meu quarteirão
tem uma viela de paralelepípedos com grama verde crescendo entre os retângulos,
sempre fico curiosa para saber onde vai dar, se na rua de trás ou em uma
garagem de outro prédio. Mais pra frente há uma Kombi que sempre fica
estacionada, é de uma organização social que recolhe lacres de latinhas para
transformar em cadeira de rodas, sempre penso em como ajudar...
Continuo andando, em um dos canteiros de calçada tem
lavanda, uma das minhas flores favoritas, na última esquina tem uma banca de
jornal que não é banca de jornal, aos finais de semana eles assam churrasco lá,
atravesso a rua e chego no ponto de ônibus. Agora é esperar, Terminal Sacomã
Circular ou o Vila Mariana.
Tem dias que atravesso a rua, do outro lado tem um ponto de
ônibus, mas há poucas opções, também tem um caminhão que vende frutas e legumes
estacionado, às vezes vejo umas senhoras comprando. Muitos vizinhos têm esses cachorros
pequenos de prédio, que sempre os levam para passear. Não gosto muito.
No passado ela está lá, ao lado do ponto de ônibus.
Uma mulher corpulenta que se mexia devagar.
No primeiro dia ela tinha poucas coisas guardadas em um saco
de lixo.
Os dias foram passando e a quantidade de coisas foi
aumentando.
Uma mudança.
Para o outro lado da rua.
Novos itens foram adquiridos.
Indignação de algumas pessoas.
Como pode uma mulher que não é tão nova nem tão velha estar
assim, na rua?
Aqui está ficando sujo.
Diz que a assistente social veio aqui.
Lentamente ela se mexia.
No outro dia ela tinha tudo.
No outro dia não tinha nada.
Nem ela mesma estava lá.
Eu também não estava, o ônibus, aquele que a gente estava
esperando, Terminal Sacomã chegou!
Bora trabalhar minha gente!
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