Bolinhos de Arroz e o Ano Novo

Durante um tempo da minha vida pratiquei o budismo de Nitiren Daishonin, e o que mais gostava na religião era as parábolas. Tradicionalmente no ano novo há uma reunião para orar e ler e estudar essa carta: 

"Carta de Ano Novo"
(Mushimoti Gosho - Páginas 1491 a 1492)
Escritura número 1 de Nitiren Daishonin na página 413.

Recebi cem bolinhos de arroz cozidos a vapor e um cesto de doces. O dia de Ano-Novo marca o primeiro dia, o primeiro mês, o início do ano e o início da primavera (no Japão). Quem celebra esse dia tornar-se-á mais virtuoso e será amado por todos. Será como a Lua que gradualmente se torna cheia à medida que se move do Oeste para o Leste ou como o Sol que se torna cada vez mais brilhante em sua trajetória do Leste para o Oeste.

Considerando a questão de onde estão o inferno e o buda, um sutra diz que o inferno está debaixo da terra enquanto um outro diz que o buda está no oeste. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela que ambos existem em nosso próprio corpo. De fato, o inferno está no coração da pessoa que insulta seu pai ou desrespeita sua mãe. É como a semente de lótus que contém tanto a flor como o fruto. Da mesma forma, o Buda habita nosso coração. Por exemplo, a pederneira contém o potencial para produzir fogo e as joias possuem um valor intrínseco. Nós, seres humanos, não enxergamos nem nossos próprios cílios, que estão tão próximos, nem o céu distante. Da mesma maneira, não conseguimos compreender que o Buda existe em nosso coração.

Podemos questionar como poderia existir o buda dentro de nós se este corpo humano, gerado do sangue dos nossos pais, é a origem das três impurezas e o local dos desejos carnais. Entretanto, ponderando reiteradamente, compreendemos ser razoável. A pura flor de lótus floresce do fundo lamacento de um lago; a fragrância do sândalo cresce da terra; as graciosas flores de cerejeira vêm da árvore; a bela Yang Kuei-fei nasceu de uma mulher de classe inferior; e a Lua nasce detrás das montanhas para espalhar a luz sobre elas. A desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a, enquanto a boa sorte vem do coração e torna a pessoa digna de respeito.
A sinceridade de fazer oferecimentos ao Sutra de Lótus no início do Ano-Novo é como as flores de cerejeira que desabrocham da árvore, uma flor de lótus que se abre em um lago, as flores de sândalo que desprendem sua fragrância na Montanha das Neves, ou como a lua começando a subir. Agora, o Japão, fazendo-se inimigo do Sutra de Lótus, convidou o infortúnio de mil milhas de distância, ao passo que aqueles que crêem no Sutra de Lótus reúnem a boa sorte de dez mil milhas de distância.

A sombra é formada pelo corpo e tal como a sombra segue o corpo, os infortúnios cairão no país cujas pessoas são hostis ao Sutra de Lótus. Os crentes no Sutra de Lótus, por outro lado, são como o sândalo dotado de fragrância.


Cinco de janeiro
NITIREN

Contexto Histórico

Nichiren Daishonin recebeu cem bolinhos de arroz e um cesto de frutas para comemorar o Ano-Novo em seu retiro no Monte Minobu. Esse presente foi enviado pela dama Omossu, irmã mais velha de Nanjo Tokimitsu, por intermédio de um súdito.

    O bolinho chamado mushimoti é típico das festas de Ano-Novo no Japão e é feito de arroz cozido a vapor. Por esse motivo, essa carta é intitulada em japonês “Mushimoti Gosho”.

    Logo depois que recebeu os oferecimentos, Nichiren Daishonin apressou-se em escrever uma carta de agradecimento para que o mesmo súdito a entregasse à dama Omossu. Essa “Carta de Ano-Novo” foi datada de 5 de janeiro, porém não consta a indicação do ano. Supõe-se, entretanto, que se refere ao Ano-Novo de 1281, ano anterior ao do falecimento de Nichiren Daishonin, quando ainda vivia no Monte Minobu.

    A dama Omossu, também chamada de Myoiti Sonni, foi esposa de Shimbe Ishikawa que exercia o cargo de governador do Distrito de Omossu. Portanto, era uma pessoa de boa posição social, comparável à primeira-dama de um governador dos dias atuais.

     O budismo ensina que cada momento do presente abrange todo o futuro, isto é, a causa criada em cada momento determina o efeito no futuro. Dessa perspectiva, a maneira como se saúda o início do ano é muito importante. Uma grande diferença pode resultar entre o ato de considerar o Ano-Novo como um dia qualquer e o de considerar como um novo início que irá decidir seu desenvolvimento durante todo o ano. Naturalmente, esse princípio vale não somente para o início do ano, mas também para todos os outros dias.

   

Moramos em um país tropical, estamos no verão, então faz sol, daqui a pouco o céu fica cinza, e garoa. Essa carta me trás um sentimento de que não conheço a minha própria natureza como ser humano e o mundo a minha volta. Tenho acordado vendo o sol e quando vou dormir percebi que a noite não é aquela escuridão que pintam. Passei o Ano Novo com minha família, antes passei nas minhas melhores amigas e conversei um pouco sobre a vida, estava com saudades. 


Desejo a todos um bom ano!

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