Um final de semana digno de interior
Fui ao Nikkey hoje de manhã, a fila da padaria estava grande, sabia que tinham feito tudo que os clientes de sempre gostam, pedi como sempre um pedaço de torta de palmito.
...
Na Feira Livre tem sempre um
canteiro com livros a venda. Me permiti andar devagar e ver se tinha algo que
me interessasse, encontrei “Torto Arado”, do Itamar Vieira Junior, dentro tinha dois marca-páginas, um do livro e o outro com a seguinte frase: Ler é sonhar de olhos abertos. Queria levar um livro só, mas como o pagamento era no cartão fui estimulada a comprar mais
livros, encontrei “Travessia” de Ivone Basílio Gonçalves e “Floradas na Serra”
de Dinna S. de Queiroz, nunca li nada dessas duas autoras.
Escolhi “Travessia” porque são
contos, e pela frase da contracapa: “tecidos a partir de sua observação aguda
do cotidiano – e das pessoas que buscam sentido em meio às pedras grandes e
pequenas que a vida coloca no caminho delas”. Gostei da utilização das três
palavras: tecido e observação aguda. Tecer é um ato de cuidado, envolve a
fibra, o fiar e o criar. Já a observação aguda me remete a um olhar fixo, e
apurado que pode ser duro, mas que da forma apresentada tem sua beleza.
Já em “Floradas na Serra” fui
pega por várias questões, a forma como José Lins do Rego descreve a autora: “a
graça de mulher que há sua expressão literária. Ela não contraria o seu sexo
para compor. Pelo contrário, é, assim como a mágica Comtesse de Noailles, uma
fonte cantando num jardim. O estilo de Dinna Silveira é sóbrio, mas tem sempre
o que dar em cor e música. É atraente, tem gosto de fruta e o cheiro das flores
da serra”, tem uma foto dela assinada, uma senhora bonita nos anos 1950, o
livro é de 1978, ele foi ganhador do Prêmio Antônio de Alcântara Machado da
Academia Paulista de Letras, tem algumas ilustrações com estilo realista
antigo, na última página tem um desenho sertanejo com duas pessoas bem
pequenininhas, uma observa a outra a pintar, a capa do livro é verde com letras
douradas na lombada, uma bela versão de bolso, sinto que expectativas foram
criadas.
O velho dos livros me levou até
um bar para que eu fizesse o pagamento, durante a travessia ele falou que se eu
quisesse outro livro de lá eu poderia levar esses que eu comprei para trocar,
falou também sobre como livro no Brasil é um item caro. No bar ele falou para a
moça do caixa me cobrar os R$15,00 (sim R$5,00 cada livro) e saiu andando entre
os carros. Fiquei com um sentimento de saudade, pois sei que em breve eu vou
para outro bairro. Pensei também em levar alguns livros que não quero mais para
o velho.
Fui para minha avó. Não tinha
ninguém no Dodô resolvi então atender ao desejo do Isaac de cortar o cabelo (somente
dos lados, com o raio, tinta dourada e com direito a pirulito). Voltei na minha
avó e minha irmã adorou o corte, acabei por deixar o Isaac lá para continuar a
brincar com a Lívia. Voltei para casa, fui ao mercado, comprei um sabão líquido
de cocô (gostei do cheiro).
Vi alguns vídeos da série Artérias,
do Sesc, me apaixonei por Aline Motta, que me ensinou que uma fina camada de água
separaria dois planos, um físico e um espiritual, Kalunga, a água serve como
uma espécie de máquina do tempo para nós acessarmos esses dois mundos; os espelhos
que são os duplos, evocam as duas dimensões; e os questionamentos: como podemos dialogar com África?
Será que o conceito que temos sobre ancestralidade supre de fato o que é a ancestralidade?
Daia Tukano mãe, artista, me
marcou com a fala: “lembrei de quando eu fui mãe e dei de mamar para o meu
filho a primeira vez, e eu sentia todo o sangue do meu corpo bombando para meu
coração e do meu coração para o meu peito fazendo zum zum zum fazendo leite, e
o meu filho mamando e o prazer que era. Imagina então o sentimento dessa terra
que brota água dos peitos das montanhas para alimentar toda a floresta. Por isso
que nós falamos que o leite da nossa mãe forma esses lagos de leite, os rios
sagrados onde surge a vida: ÁGUA!”
Por último assisti o do Dalton
Paula, garrafada de capim guiné, entre a propriedade medicinal e a propriedade
tóxica (representada pelo vidro).
Acorda cumpade guiné!
Voltei para a rua da minha avó levei três livros na bolsa, “Torto
Arado”, “Travessia” e “Contos de Axé”, sentei como antigamente na calçada da
minha madrinha, aproveitei o sol para ler.
Um conto: “Amor é Methiolate e não band-aid – Oxum por Rodrigo
Santos”
Retalhos
“A avó mora no quarto dos fundos, lençóis de goma e água de
lavanda, o rosto e os cabelos se confundem na brancura o toque de cor são os
olhos, azul que ela trouxe do outro lado do mar. O mesmo azul dos pratos que
vieram junto e são usados no jantar de Natal. ”
Sim eu acertei na escolha! Travessia já começa lindo. Esqueci
de dizer, no livro tem uma dedicatória bem forte:
Zé Luiz
A Travessia também é feita de saudade.
Eu nunca daria um livro com dedicatória.
“(...) Minha irmã, Belonísia, que estava comigo, era mais
nova um ano. Pouco antes daquele evento estávamos no terreiro da casa antiga,
brincando com as bonecas feitas de espigas de milho, colhidas na semana
anterior. Aproveitamos as palhas que já amarelavam para vestir feito roupas nos
sabugos. Falávamos que as bonecas eram nossas filhas, filhas de Bibiana e Belonísia.
”
Eu tive que ler esse trecho para minha avó, e o melhor foi a reação
dela: - Esse livro já é o meu?
Com essa pergunta encerramos por aqui, as coisas estão
acontecendo em um outro ritmo, vou continuar curtindo o final de semana,
pretendo fazer crochê e quem sabe pintar um pouco.
Bom final de semana pro cês!
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