Nasce assim

 

A doença está em conjunto da cura

 

Contam que Nanã a mãe ancestral, mãe do ser humano, a mais antiga de todas as Iabás, depois de muito velha quis ter filhos. Ela foi até Ifá o adivinho e perguntou sobre como poderia ter uma criança, Ifá diz:

– Você já criou o ser humano, você ainda quer mais filhos?

Nanã o responde:

– Eu quero o meu, do meu corpo.

Aí ele diz assim:

– Você tem certeza do que você quer?

Nanã: – Claro, vocês podem ou não podem me ajudar?

 

O destino olha bem forte nos olhos de Òrúnmìlà, e ele olha bem forte nos olhos do destino, e os dois olham bem fortes para Nanã, e perguntam:

 

É realmente o que você quer?

 

E Nanã diz sim.

 

Assim eles a ensinam um encantamento e ela fica grávida. Quando está perto de ter o seu bebê ela procura um lugar bem tranquilo e escondido, sente que ele irá nascer, prepara tudo.

Quando Nanã se depara com o bebê ela fica horrorizada, seu filho é muito feio, cheio de bolhas, ele já nasce se esticando, se encolhendo e se coçando.

– Eu esperei tanto tempo para ter um filho e tive um filho tão feio, antes um bicho.

Mas ela não sabia que era Omolu.

Nanã aperta sua barriga e nasce o segundo filho, lindo. Quando ela vê aquele bebê lindo empurra com o pé ela o filho feio para longe dela, e diz:

– Esse sim, é o filho que eu queria!

Quando ela vai pegar o filho lindo no colo ele se vira de bruços, se transforma numa cobra, com todas as escamas douradas e sai rastejando, ela fica apavorada! Procura aquela criança linda, mas agora só tem o rastro e quando olha para o lado vê aquela criança se coçando, choramingando, ela enrola aquela criança e no final de 14 dias ela diz:

– Eu não posso ficar com você. Eu não aguento ficar com você, vou deixá-lo com alguém que possa cuidar.

Ela sai procurando onde deveria deixar aquela criança. O destino faz com que ela se encaminhe para a beira mar, acha umas pedras e acredita que a criança ficaria bem abrigada ali. Amamenta pela última vez aquela criança e diz:

– Com certeza você irá encontrar alguém que cuide de você!

Assim procura o seu destino, nunca mais voltou, foi em frente.

 

A partir daquele momento em que Nanã teve seu bebê e o empurra com o pé, também tinha nascido a doença, a doença sobre a terra e sobre os seres humanos. Então no momento em que o bebê sente fome ele chora, chora com toda força. E o mar de fronte para aquela criança se revolta, com ondas braveais, o mar ao tentar se aproximar do choro e se transforma em uma forma humana, uma mulher morena, é Iemanjá, a mãe dos orixás, que sai procurando por aquela criança. Chegando ao abrigo das pedras diz:

– Que linda criança que eu ganhei, que lindo bebê que deixaram para mim!

E imediatamente em seus seios começaram a sair leite. Ao amamentar o leite que ia acumulando na boquinha do nenê, que ia escorrendo pelo corpinho, descendo para o mar e se transformando em espuma. Então quando o bebê já está saciado ela o leva para dentro d’água o lava-o todo, diz que em todas as vezes em que ele quisesse comer ela o alimentaria.

Assim o bebê vai crescendo e se acostumando a dormir sozinho, mas nas horas que precisava de cuidado lá estava a mãe dele que saia de dentro d’água. 

Um dia Omolu pergunta:

– Você é minha mãe? Porque vejo você se transformar de peixe em ser humano, você realmente é minha mãe?

E Iemanjá diz sim.

Ele não perguntou mais nada, observava as suas transformações, se questionou e concluiu que não, ela não era sua minha mãe. Omolu foi a procura de sua mãe, mas ele só conhecia a beira mar, com isso acabara por se perder. Todas as vezes que Omolu queria as coisas ele chorava, assim quando se perdeu no meio das pessoas começou a gritar e a chorar e, imediatamente a sua mãe vem em forma humana e o abraça forte e diz:

– Eu te procurei tanto, mas agora você não vai se separar de mim, sempre eu irei te achar!

Ela criou guizos e colocou um em cada pezinho de Omolu, e a cada vez que ele andava fazia um barulho, possibilitando que ela o achasse. Ao crescer com o tempo o corpo dele se abria com feridas e fechava. Quando seu corpo abria em feridas ela colocava uma roupa toda de palha, só deixava parte das mãos, dos pés e o lugar dos olhos, a vista e assim saia com seu filho.

Quando essa mulher bonita entrava em um mercado, todo mercado parava e ficava olhando intrigado, porque essa mulher bonita, tão chique não deixa ninguém ver o filho dela? Nós temos que saber o mistério. Em um dia essas pessoas vão onde está a pessoa mais velha da aldeia, que era o contador de histórias, que durante o dia de feira ficava sentado embaixo de um pé direito. Perguntaram-lhe:

– Senhor, o senhor que sabe tudo, tem que procurar saber daquela dama, que vem com o seu filho coberto de palha, porque ela esconde ele da gente, quem é ele afinal, por que ela faz isso?

Aí o velho perguntou:

– Vocês acham que é importante que eu pergunte a ela porque o filho dela vem coberto com aquela roupa?

Eles:

– Sim! Sim! Sim!

Então no próximo dia do mercado eu irei perguntar, diz o adivinho, daqui a quatro dias (porque a semana iorubá tradicional tem quatro dias, as horas são mais longas).

Ele ficou esperando a passagem daquela senhora, muito bonita, ricamente trajada, segurando pela mão um menino com seus 10, 12 anos todo vestido de palha. Quando ela para no meio da feira o velhinho faz grandes saudações a ela e o povo também. Ele para em sua frente e indaga:

– Estou aqui como representante do povo e quero lhe fazer uma pergunta.

– Sim.

– Humildemente o povo lhe pergunta, porque a senhora traz seu filho inteiro todo coberto de palha, só podendo nós ver partes dos pés e as palmas das mãos, e talvez o lugar onde ele tem os olhos?

Ela diz:

– Porque o meu filho é o mais lindo!

– Mais lindo do mundo?

– Sim

– E nós podemos então ver a beleza dele?

– Podem sim.

Abre-se toda a palha que estava entorno do corpo dele. O sol estava muito quente, quando ele virou de frente para o povo, o sol o iluminou.

Todos em sua volta disseram:

– Realmente ele é o mais bonito do mundo! Ele tem seu rosto todo coberto de ouro. Sim senhora, seu filho é o mais lindo!

Todos tomaram a benção para essa mulher e bateram cabeça para aquela criança. Iemanjá o cobriu de palha e o levou.

 

Hoje cultuamos esse menino feio como Obaluae, como é conhecido nacionalmente, é o senhor da terra, o orixá da cura, da saúde e também das doenças; e o menino lindo como Oxumarê, o orixá que caminha entre o céu e a terra como arco-íris, trazendo a abundância, a fartura e a cura para os desequilíbrios do amor e as mudanças de ciclos para seus devotos e filhos.

 

Baseado nos Contos de Asè – Omolu

Disponível em: <https://youtu.be/MKLYfnAiIUE> Acesso dia 13 de novembro de 2021.

 

 

Dia 28 eu faço 28

 

Ainda não sei muito bem como meus pais se conheceram, entretanto, sei que na época minha mãe tinha 15 anos e meu pai o dobro de sua idade. Meu verdadeiro pai, meu avô, com sua sabedoria de Francisco, nascido em Cachoeira de São Felix, Bahia, observou a situação e disse para minha mãe:

– Menina, isso não é para você.

Quando somos novos e imaturos tendemos a ignorar pai e mãe, com isso o relacionamento continuou e logo minha mãe soube que estava grávida de mim. Minha mãe, é uma mulher negra, sempre foi muito bonita, assim como Iemanjá, mas ao mesmo tempo ainda era uma criança para cuidar de outra criança.

Meu pai biológico a abandonou ainda durante a gravidez, meus avós fizeram com que minha mãe assumisse a responsabilidade de ter um filho, então minha mãe fez diversos cursos de gestante para garantir que eu tivesse roupas. Ela achava que eu seria um menino, e inclusive escolheu o nome de um amigo seu que achava muito inteligente, o Renê.

Sempre ouvi por diversas vezes, por minha mãe a história que no dia 28 de novembro de 1993 em um domingo, ela sentiu uma dor de barriga forte e minha tia Lourdes falou que o bebê estava nascendo, no mesmo dia teve o jogo do Corinthians que contou com o gol do Viola no Brasileirão.

A música que embala minha chegada ao mundo é Domingo (Compositores: Alexandre Pires / Fernando Pires / Jose Filho / Renato Barros)

 

Domingo quero te encontrar

E desabafar todo o meu sofrer

Estar ao seu lado, esquecer de tudo

Tudo que o amor até hoje nos fez sofrer

 

Esquecer a briga que deixou ferida

E que até hoje não cicatrizou

Se amar de novo faz parte da vida

Abre o coração, tudo tem sentido e tem razão

 

Cola o teu rosto no meu

Chega mais perto de mim

Faça de conta que eu sou teu namorado (namorado)

Amar você é bom demais

É tudo que eu posso querer

Se tudo você tem melhor

Pior é te perder

 

Eu nasci, assim como Omolu com feridas, não eram visíveis, tive bronquite, broncopneumonia. Doenças pulmonares geralmente estão relacionadas a melancolia, tristeza, falta de perspectiva de vida. Durante muito tempo me questionei sobre a minha constituição familiar. Para uma criança é complexo ter a ausência da mãe, causada pelo fato de excesso de trabalho e a vivência com os avós, por mais amáveis que eles fossem. A doença ia e voltava, e eu era o Sol daquela família.

Imagine um Baobá, árvore ancestral africana, a primeira árvore que Deus criou, o Baobá é a árvore mais antiga e todas as histórias do mundo nele estão contidas. O Baobá era reclamão. Deus então foi se enfurecendo, se enfurecendo e o pegou e o virou cabeça para baixo. Ficaram para cima as raízes, e sua cabeça do ficou enterrada. As pessoas até hoje ficam em baixo do Baobá escutando os conselhos da árvore. Esse Baobá teimoso de touro é a minha mãe, dona Teresa. 

Minha mãe, minha raiz, dona Teresa foi quem cuidou das minhas feridas, com a medicina das curandeiras, xarope de umbigo de bananeira, chá de poejo, rezas. Seu coração é grande e assim como o Baobá e para abraça-la precisamos de 100 pessoas adultas, pois sua generosidade é imensa.

Quando Omolu se perde no meio do povo ele chora, e tem a proteção de sua mãe. Quando era pequena entre 9 e 10 anos fomos para a praia e me perdi, minha mãe sempre usava um biquíni vermelho e eu falei para uns homens como ela era e consegui reencontra-la. O choro reflete o mimo que só compreendi quando cresci e tive meu filho, Isaac.

A história se repete, assim como Lacan prevê, sou mãe solteira e passei por inúmeras dificuldades e tenho minha família que é composta não somente das pessoas consanguíneas como também por uma rede de amigos que me amam e cuidam de mim e do meu filho.

Este ano é marcado pelo meu setênio de 28 anos, que é evidenciado pela busca da estabilidade emocional e profissional, pela conquista do meu lugar no mundo. 2021 está sendo um ano de muitas conquistas, porém um ano muito difícil, desde criança não ficava internada e durante duas vezes vi minha vida passar sem poder dominá-la, conquista-la.

            Estou no momento de cura, de todas as dores, e assim como Oxumarê, quero trazer abundância e alegria para as pessoas que amo, e principalmente para mulheres que cruzarem o meu caminho.

 

 

Esse texto tem como referência o espetáculo Cura da Deborah Colker, que assisti graças a Gabi, mulher, mãe do Pedro, amiga, parceira de trabalho e que me ensina sempre que Deus me ama, por inserir pessoas incríveis em minha vida!

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tenho acordado com vontade de viver

Semelhanças entre “O laço de Fita” (1913) de Castro Alves e “Menina bonita do laço de fita” (1986) de Ana Maria Machado

Mente pra mim não muleque