um empurrão para a vida

    Estávamos tomando banho de mar; a água estava quente, não porque havia sol, mas porque os nossos corpos tinham se acostumado com aquela sensação. Você mergulha; depois vem em minha direção. Meu olhar encontra o seu. Vemos as pessoas indo em rumo à ilha. Você fala que podemos ir também. Eu faço manha, falo que onde estávamos está gostoso. Você olha, tenta me animar. Vamos.

    Eu arrumei as coisas em uma bolsa improvisada numa canga. Pegamos duas cervejas. A água estava batendo no joelho quando estávamos andando em direção à ilha, também vemos dois cachorros pretos ocupando aquele espaço, enquanto isso, vemos alguns homens voltando  — os meninos cresceram, viraram homens, capitães da areia  — os cachorros também decidiram voltar nadando, um dos homens fala para o outro: olha lá eles sabem nadar e você não, você ouve o homem falando: olha lá os neguinhos, e reflete sobre a suposta brincadeira, um racismo velado.

    Chegamos, subimos nas pedras para tomar sol, conversar e contemplar a beleza natural; falamos sobre nossos sonhos, sobre como pensamos a vida e sobre como é a nossa conexão. Vimos um casal se aventurando para chegar à ilha. O homem tirava fotos. Estavam felizes e andavam com leveza. Não vimos como eles chegaram, como se fosse uma miragem; demos sorrisos largos e, ao olhar para trás, avistamos o casal. Eles ficaram mais um pouco, tiraram mais fotos e foram embora. Eu reparei que a água estava na altura do peito da moça e falei que seria hora de voltarmos. Você, com calma, olhou para mim e falou sobre terminarmos de tomar as cervejas e voltarmos. Eu aceitei tranquilamente.

    Começamos nossa jornada de retorno, pelo caminho das pedras. Andando, a maré tinha subido e, em determinado momento, fiquei sem pé. Eu não sei nadar, então fiquei com medo. Segurei em suas costas e comecei a bater os pés. Nervosa, comecei a rir. Falei: Vitor não me abandona. O medo era real. Estávamos sem pés, em determinado momento, você me diz com muita tranquilidade: estou sem ar. Você me empurra e eu só sinto pressão. Eu começo a tentar nadar para frente, bato as mãos e os pés, mas não saio do lugar. Eu afundo. Vejo a água verde e a areia no fundo. Consigo subir sem engolir água e permanecer com a cabeça acima. Vejo sua mão subindo e descendo e não te vejo mais  você sempre faz gracinha e pergunta se quero doce ou chocolate e oferece o braço e dessa vez foi diferente. Eu reúno todas as minhas forças e mantenho a calma — me surpreendo comigo mesma, tenho medo de água — e consigo gritar por socorro.

    Quatro homens que estavam andando me escutam; dois deles vêm nadando em direção a onde estávamos. Segura o braço. Vejo sua cabeça voltando à margem. Alívio. Eu seguro o braço, vejo que ele não consegue nadar comigo segurando, solto o braço dele, pego na sunga e vou batendo os pés, fazendo o que conseguia naquele momento. Agora já temos pés para voltar andando. Chego sento, na beira da praia como um novo nascimento, saindo das águas para um mundo novo.

    Olho nos seus olhos; vejo que está vivo e ao meu lado; sabia que tinha tentado me salvar. Me sinto completamente amada. Venho ao mundo querendo estar perto dos meus, dizer eu te amo para todos que fazem parte da minha vida, fazer coisas novas e viver.

    Banho longo e quente, digo que te amo. Você ainda está em choque e não me responde, mas te conheço e sei que o amor por você é demonstrado em todas as suas atitudes. 

    

     Amo que a nossa história é observada por dois ângulos, o seu e o meu — da mesa e da cadeira — e, quando te contei o que passamos pelo meu olhar, você me conta que passamos por um banco de areia e que juntou todas as suas forças para poder me salvar — um empurrão para a vida —  e ficou feliz por eu não ter visto, pois provavelmente eu me desesperaria. 

    Hoje, dia 16/06/2026, você faz aniversário. Fico imensamente feliz por estarmos compartilhando a vida e por todos os momentos juntos, e apesar de algumas situações da vida não serem confortáveis, acredito que algumas vivências tornam a gente mais forte. Te admiro como pai, profissional, homem e amigo. Quero ficar de historinha com você hahahahah por muitos e muitos anos.


Te amo, Thamires

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